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Quem nunca sentiu as mãos a suar, o coração a bater depressa, a boca seca e um nó na garganta?
Mesmo o mais corajoso de nós já sentiu medo nalguma altura da sua vida…
O medo é uma reação emocional mais ou menos intensa perante um perigo específico real ou imaginário, que pode assumir várias manifestações, nomeadamente reações ao nível comportamental (gritar, fugir) e biológico intenso (aceleração da pulsação) ou externo (tremer, rosto assustado).
O medo é um sentimento universal “que faz parte de todos nós e, em particular, faz parte do crescimento das crianças”. Transmite-nos a sensação de que corremos perigo e é geralmente acompanhado de sintomas físicos, “tais como aceleração cardíaca, vermelhidão e angústia”. Servem muitas vezes para “nos alertar do perigo e como tal para nos proteger”, esta função protetora e adaptativa é especialmente importante nas crianças.
É este medo que faz com que as crianças reajam a estranhos, não se aproximem de certos animais entendidos como perigosos, não se afastem dos pais em locais desconhecidos, evitem entrar em sítios escuros ou sintam a necessidade de recorrer a um adulto para o fazer. Numa situação “normal”, quando uma criança se apercebe, por exemplo, que afinal aquele barulho violento não se trata de algo ameaçador, o medo “deverá de imediato e naturalmente recuar”.
As investigações, de uma forma geral, sugerem uma redução do número de medos com a idade (Fonseca 1993; Kendall et al., 1991; Ollendick, Grills, Alexander 2001; Sweeney & Pine, 2004). As crianças mais novas apresentam um número de medos sub-clínicos significativo; as mais velhas bem como os adolescentes tendem a referir menos medos.
A emoção medo pode ser observada por meio das respostas motoras (posturas, gestos) e das respostas neurovegetativas (taquicardia, suor). Como manifestações do medo percetíveis pelas outras pessoas, tem-se o afastamento social, a apatia, a tristeza ou, mesmo, a dificuldade para concentrar-se no trabalho ou em brincadeiras.
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Medos considerados normais de acordo com a idade da criança/adolescente |
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0 – 6 meses |
Perda de apoio; Quedas; Barulhos intensos |
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7 – 12 meses |
Estranhos; Alturas; Objetos súbitos e inesperados |
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1 ano |
Estranhos; Separação dos pais; Casa de banho (higiene, feridas) |
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2 anos |
Separação dos pais; Barulhos estranhos; Animais; Escuro; Mudança ambiental; Objetos grandes |
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3 anos |
Separação dos pais; Barulhos estranhos; Escuro; Máscaras |
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4 – 5 anos |
Separação dos pais; Animais; Escuro; Lesões corporais; Pessoas más |
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6 anos |
Seres sobrenaturais (ex: fantasmas, bruxas); Lesões corporais; Escuro; Estar sozinho ou dormir sozinho; Trovoada |
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7 – 8 anos |
Seres sobrenaturais; Escuro; Estar sozinho; Ladrões; Acontecimentos divulgados pelos “media” (notícias de morte, raptos…); Lesões corporais |
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9 – 12 anos |
Escuro; Desempenho escolar; Lesões corporais; Aparência física; Trovoada; Morte; Escur |
Existem medos que poderão traduzir a presença de patologia, sendo importante identificá-los. É importante ter presente que quanto mais marcada a interferência do medo na vida da criança ou adolescente e o grau de ansiedade associado, mais provável será a sua duração ao longo do tempo, com possível repercussão na vida adulta.
Os Medos e a Família/Escola
De acordo com a literatura, muitas crianças desenvolvem medos quando inseridas em contextos (familiares ou educacionais), onde comportamentos e crenças ansiosas são induzidos, reforçados ou modelados. De facto os pais e educadores podem contribuir fortemente para a construção de medos na criança, nomeadamente, através do diálogo e estilos parentais adotados. Um exemplo disso é a utilização de frases condicionais: “Portas-te mal, vais para a escola” ou, “fazes uma birra, chamo a polícia”.
Saber lidar com o medo
A abordagem ao medo tem como objetivo principal ajudar a criança a encontrar formas positivas para superá-lo. Esta abordagem passa pela tranquilização firme e segura; pela educação e explicação acerca do medo; e por estratégias para o desconstruir, como jogos que incluam o alvo do medo. A educação parental é fundamental e inclui as seguintes atitudes:
Valorizar adequadamente o medo e a reação da criança/adolescente;
Incentivar a formulação de soluções para enfrentar o objeto/situação temida (exemplo: elaborar uma história engraçada sobre o monstro temido ou na qual a criança consegue superar o seu medo, mostrando-a como corajosa);
Não favorecer o evitamento excessivo, mas também não forçar para além da capacidade de adaptação;
Evitar atitudes intensificadoras do medo, como sejam, a indiferença, a hiperprotecção, a ironia, a humilhação e as expectativas irrealistas;
Utilizar demonstrações concretas (exemplo: mostrar a uma criança com medo de monstros ou fantasmas que não existe nada debaixo da cama, nem dentro do armário);
Esclarecimento de dúvidas (exemplo: explicar que existem alguns barulhos que só são percebidos em ambientes silenciosos, como é o caso do som dos ponteiros do relógio e que isso é normal e não é preciso ter medo);
Durante o dia:
Ajude o seu filho a certificar-se de que não existem fantasmas nem monstros debaixo da cama nem dentro do armário;
Ajude-o a entender os sentimentos descontrolados que ocorreram durante o pesadelo;
Explique e dê-lhe informações simples, claras e credíveis para que ele possa entender os acontecimentos da vida familiar que possam estar a perturbá-lo;
Evite filmes, programas de televisão e jogos de computador que possam ser violentos e provocar medo, insegurança ou incompreensão.
Na hora de dormir:
Sente-se junto dele e explique-lhe o que o preocupa;
Aceite os seus receios e a necessidade de se agarrar aos pais;
Deixe uma luz de presença no quarto;
Encoraje-o a usar objetos de conforto (ursinho ou cobertor preferido);
Conte histórias que ajudam a compreender os medos e sentimentos vivenciados de forma indireta;
Se ele recorre à cama dos pais, depois de um pesadelo, deve acalmá-lo e levá-lo de volta a cama dele, onde lhe deve dar alguns minutos de aconchego e conforto.
Quando procurar ajuda?
É aconselhável procurar ajuda médica, nas seguintes situações:
Dificuldade em adotar as estratégias propostas;
Persistência da situação;
Presença de sintomas perturbadores das funções biológicas, como alimentação e/ou sono;
Presença de sintomas invasivos do quotidiano da criança;
Presença de sintomas causadores de sofrimento intenso.
Em suma, nunca devemos negligenciar o medo de uma criança. A compreensão e a conversa são ótimas ferramentas para o ultrapassar. O mais importante é trazer de volta a merecida alegria à criança!
Ana Lopes – Psicóloga Clínica e da Saúde
Magda Lopes – Psicóloga do Comportamento Desviante e da Justiça