![]()
A partir dos dois anos, as crianças encontram–se num período de mudança, onde procuram novas experiências, exploram o mundo e aquilo que os rodeia, começam a ter vontades próprias, descobrem o que podem, ou não fazer e testam limites. É nesta fase do desenvolvimento que começam a surgir as primeiras birras!
E o que são as birras?
As birras são episódios emocionais, breves mas muito intensos, caraterizados por serem desorganizados, explosivos, impulsivos e fora do controlo das emoções. É através das birras que a criança exterioriza, de forma saudável, as suas emoções, os seus sentimentos, as suas vontades e as suas necessidades.
Porquê?
“Porquê é que tenho de arrumar os brinquedos hoje se amanhã vou brincar novamente com eles?”
“Porquê é que tenho de ir para a mesa se aquilo que eu quero é ver os desenhos animados?”
“Porquê é que tenho de ir dormir se é muito melhor brincar com os meus pais?”
A criança sente desejo de ser independente, não tem capacidade de escolha, não sente o apoio dos pais na tomada de decisão, e acima de tudo não compreende o porquê de não poder fazer aquilo que quer, quando quer, sentindo-se zangada, frustrada e com raiva. Neste sentido e porque não conseguem exprimir os seus sentimentos com palavras as crianças, fazem birras!
Entre os 3 e os 5 anos as crianças têm birras muito intensas todos os dias, no entanto é esperado que estes comportamentos vão diminuindo ao longo da infância. No entanto, as birras são importantes e fazem parte do normal desenvolvimento da criança, representando um problema apenas quando são intensas, duradouras, frequentes e não são controladas pelo adulto.
O que fazer? O que importa refletir…
- Os pais são o modelo, as crianças imitam o que ouvem e o que veem, portanto sejam o exemplo, sejam ORIENTADORES, sejam assertivos! É importante que os pais sejam consistentes, firmes, que saibam estabelecer limites ao mesmo tempo que dialogam com os filhos, explicam o porquê das suas ordens e compreendam as suas emoções. É importante que um “SIM” e um “Não” sejam cumpridos e levados até ao fim!
“Eu compreendo que estejas zangado porque querias brincar mais com o pai, mas está na hora de ires dormir e tens que ir para amanhã ires mais feliz para a escola.”
- “RR”: REGRAS E ROTINAS!
É muito importante que se definam regras e que existam rotinas. Quantas vezes não dizemos às crianças “porta-te bem”, mas o que significa “portar-se bem?”! As regras definem o que é esperado do comportamento da criança, orientam as suas escolhas e responsabiliza as suas atitudes. De igual modo, existindo uma rotina ajustada, uma consistência diária, a probabilidade de existirem conflitos diminui porque a criança sabe com o que pode contar e percebe que “vai ser sempre assim”, tornam o comportamento previsível. A rotina dita a lei e diminui a “insistência” dos pais. Ao cumprirmos as regras e ao estabelecermos rotinas estamos a criar crianças mais seguras e confiantes!
- BRINQUE muito! Lembre-se também que todas as crianças procuram a atenção das pessoas, especialmente dos pais, seja ele positivo (elogio) ou negativo (crítica). Se não conseguem a atenção positiva, vão tentar obter a atenção negativa, portando-se mal fazendo birra, uma vez que isso é preferível a não receber qualquer espécie de atenção. Portanto, BRINQUE muito com o seu filho, e elogie! Uma dose regular de cerca de meia hora de brincadeira em conjunto todos os dias, seria o ideal. Se as crianças estiverem seguras de que recebem regularmente atenção dos seus pais não precisam de inventar meios inadequados de o fazer.
Face à primeira birra, é importante saber responder com calma, mas com absoluta determinação. É importante que os pais digam “não”, mas ao mesmo tempo, transmitam carinho e compreensão sem deixarem de ser inflexíveis, explicando as razões pelas quais não se satisfaz o seu pedido naquele momento.
“Compreendo que estejas zangado porque gostavas de estar mais tempo em casa da avó, mas já é tarde e temos de descansar”.
E compreenda que… Repreender, castigar, dar longos sermões, ameaçar, chantagear, prometer, suplicar, culpabilizar, ridicularizar, chamar nomes, gritar ou berrar, ordenar, exigir e comparar com colegas ou irmãos, dar uma palmada são estratégias que por muito que possam resultar a curto prazo, não vão resultar a longo prazo!
Portanto, tenha em consideração que quando damos atenção positiva a uma birra (ex. gritar, dar uma palmada…) estamos a reforçar o comportamento e portanto é provável que essa birra se repita. Por outro lado, quando ignoramos uma birra estamos a cessar o comportamento, e portanto é provável que essa birra não se repita.
Vamos chamar-lhe a “regra do comportamento”: se gosta que o seu filho arrume os sapatos, se sente adequadamente à mesa, ou até que vista sozinho o pijama, elogie muito esses momentos!
“Estamos muito orgulhosos de ti, vieste para a mesa logo que te chamamos”.
E neste dia, recompense-o! Um privilégio especial em casa, (ex. escolher a sobremesa para o jantar; escolher o programa de televisão; vestir a roupa dos pais; brincar com plasticina…).
Pelo contrário, se não gosta que ele faça birra porque quer o chocolate no final do jantar, ou porque quer ver mais tempo televisão…ignore: não olhe, não fale e não toque!
Mas prepare-se para ser posto à prova enquanto ignora e até para as birras piorarem quando o fizer, mas a médio prazo a criança irá perceber que as birras não conduzem a nada, portanto, terá de desistir!
E no final da birra, converse muito com o seu filho! Falem sobre o que se passou, o que estava certo e o que foi errado, porquê que não pode voltar a acontecer e quais vão ser as consequências de uma futura birra e as consequências do bom comportamento!
E muito importante…Não se esqueça de si!
Controle os seus pensamentos e reduza os pensamentos negativos!
Substitua pensamentos negativos por pensamentos tranquilizantes ou positivos, não pense que “Ele está a fazer birra porque me adora ver irritada”, mas sim “Vou ter de o ajudar a ganhar algum controlo sobre si próprio, sou eu que o devo ajudar nisso”.
Relativize a situação, lembre-se que todos os pais têm problemas destes! “Quem disse que as crianças têm de ser justas com os pais?”, “Por que é que eu havia de esperar que ele fosse perfeito?”.
Não se deixe levar para avaliações sobre o que “devia acontecer” ou como “tem que ser”: não existem pais perfeitos!
Auto elogie-se todos os dias, até porque é com certeza um pai/uma mãe fantástico(a)!
Juliana Pinto – Psicóloga da Educação e do Desenvolvimento


















